sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O fundo do poço






O fundo do poço

Hoje digo adeus aos velhos preceitos
Sou um miserável,
Presta nem o esqueleto.
Farrapo humano que a podridão
Consome.
Chagas mo fazem horroroso,
O pus escorre pelo âmago.
Os vermes deleitam-se com
O putrefato.
De fato estou morto sem
um ataúde.
E essa terra que me viu nascer,
Engole-me como um trago de
Uísque falsificado.
Imprestável como eu
Que passei pela vida como um
Acorde de guitarra na madrugada
Enevoada pela fumaça dos cigarros.
Companheiros meus, pobres
Bêbados sem casa,
Lembrai desse camarada,
Que na vida foi tudo e hoje
Chega ao umbral sem nada.

A MORTE NÃO É PRIVILÉGIO TEU




A MORTE NÃO É PRIVILÉGIO TEU


Morrerei amanhã, confetes e serpentinas
Douto que és tu dirás: Não é privilégio teu!
Haverei de ir, mas eu prefiro morrer em lira
A mesma que aos poetas instiga, grande céu.



No firmamento minha alma será apenas luz
Anjo é sabido que não sou, mas brilho terei
Outra estrela habitar o espaço celeste, azul
Com certeza teu olhar de espanto levarei.



Acaso pensaste que morrer é glória de sábios?
Ao cimo embarcam espíritos todos os dias
Muitos não aprenderam a lição, o astrolábio.



Viveram sem direção, como autômatos, letargia
Eu deixo papéis amarelados, sou alfarrábio
E tu deixas o quê, uma vida de falsas alegrias?






“É tão difícil as pessoas razoáveis se tornarem poetas,
quanto os poetas se tornarem razoáveis. “
(Pablo Neruda)

Não se faz vampiros como antigamente



Não se faz vampiros como antigamente

Ontem á noite em uma reunião com o Lorde,
Tivemos uma conversa cara a cara.
Eu descrevi para ele todos os horrores de
Minha época. Fiz uma lista:
Fantasma não arrasta mais corrente agora
O pobre empurra a vida com a barriga.
Facadas é a luz do dia e tem também as
bala perdida, não é doce não é pólvora.
Existe guerra que chamam de santa, pode?
Filhos matam pais e vice-verso, é a maior
Moda. Mas chique mesmo são as pedras,
Agora elas têm até sabores, craque recheado.
Nas favelas e nos morros, condomínios da
Miséria tem festa todo dia, a polícia invade,
Mata gente inocente, mas é tudo bem organizado.
Vez ou outra alguém que passa por perto também
É assassinado, por engano.
Eu iria falar mais, mas o Lorde pediu pra parar,
Olhou-me friamente e falou:
_____Anota aí!
Afasta este cálice de água santa.
Beberei ás amarguras da noite
A asa pestilenta me encanta
Neste vôo onde dormem os açoites

Já não violam minha alma
Minha cova jazia ao abandono
Agora, alcova das serpentes e damas
Cabaré onde sou o único dono

Monopolizei os sofrimentos alheios
De euros enchi o meu bolso
E ergo a foice da justiça e creio

Creio na miséria, nos crimes
Nas doenças, nos horrores diários,
Nas guerras e,
Nesta taça onde bebo sangue
Feita de algum crânio!

EPITÁFIO






EPITÁFIO

Por estreitos vales
Onde a luz não encontra
Abrigo, nem o tigre
Atreve-se a entrar,
Abandonei minhas dores!

No sepulcro onde não há
Epitáfio, cova funda,
Onde urram os fantasmas,
Enterrei o meu vazio!

Na lama negra da floresta,
Onde o húmus predomina,
Atirei minhas últimas gotas
De lágrimas que na face
Escorriam!

Ora vos direis que tudo
No amor suportei.

Morri de paixões e volúpias
Fugazes, portei-me como
Uma vampira ao beber o sangue
Das amarguras em trevas
Profundas.

Mas vos deixo um recado a
Sorrir:

Renasci hoje, augusto
Dia. Despertei qual
Estrela matutina e vou amar
Novamente,
Por toda a minha vida!

Balada da loucura



BALADA DA LOUCURA

Martírio horas estúpidas, obscuras
Os deuses declinam com dignidade
O pássaro rompe a noite escura
Asas negras a desafiar a verdade

Paira na escuridão lembranças do viver
Estou encolhida, de olhos vendados
A realidade insiste em sobreviver
Os sonhos que tive estão enterrados

Até quando irão me esconder?
Não sou daltônica nem alma penada
Condenada a um eterno sofrer
A vagar sem rumo, desesperada

Nesta caverna pestilenta não há luz
Nem resquícios de humanidade
Nada que ao meu imo seduz
Apenas o dissabor, a crueldade

Minha mente perturbada grita
Caso que nem mesmo Freud explica.
Insanidade encarcerada,
O cérebro a tal massa cinzenta
Que se ausenta e lamenta,
Pois me roubaram a oportunidade
De SER FELIZ!


Óbito








ÓBITO



Quis em demasia coisas

Fúteis, passageiras.

Esqueci de preservar o

Amor que a vida me oferecia.

Fui cego e inconstante.

Deixei morrer o sentimento,

Em detrimento de meus

Impulsos arrogantes.

O falecido não teve velório,

Foi enterrado às pressas,

Cheirava mal e estava preste

A explodir.

Lamentar vai não adiantar,

Ela se foi para nunca mais

Voltar!

Angústia





ANGÚSTIA

Minha estrada não alcança... Não chega á tua casa.
Correm desesperadas as águas doces em busca do mar
Naufrágio, lágrimas perdidas sem te encontrar.
Quem dera tivesse asas...

Meu caminhar está lento, pesam as saudades e a solidão.
Os olhos sem enaltecimento, mas não me olvido da paixão.
Sou romântica de nascimento e na vida só tive desilusão,
É sina de poeta amargar decepção?

Quem dera tivesse asas...
Para libertar-me desta condenação
Da angústia residente neste triste coração!

Um lamento



Um lamento

Devo aceitar o meu padecer,
Sombras, carne fétida,
Tudo é negro.
Estou pálida,
Falta sangue nas veias,
Falta vida neste viver.

Grito, tento me aproximar,
Ninguém escuta...
Choro a dor de feridas
Expostas na alma,
Ninguém vem me consolar...
Sou nada, existi apenas.

Alta madrugada, todos dormem,
Sono profundo, eterno,
Estou a perambular, não descanso,
Frio jazigo.
Queria embalar num sono real,
Voltar a viver, sorrir ...
Desta vez quem sabe,
Ser feliz.


Vampira



Vampira
Não tentes tirar um brilho
sequer de minha alma.
Sou luz que emana esperança.
Dentro de mim habitam
anjos e querubins.

Se queres proximidade
venhas cheirando perfume
de jasmins.

Mas não chegues assim toda
ansiosa,
ávida por sugar minha energia.

Sou vida, alegria,
sorriso de criança...
Tú és escuridão.

Meu coração é movido
por sentimentos.
O teu já não pulsa.

Dama negra, outrora
foste a mais bela.
Seja realista, agora
exalas podridão.

Afasta-te Vampira!
Do meu sangue não beberás,
não permitiria,
porque minha cara,
esse seria o seu fim.

Guerra dos sentidos





GUERRA DOS SENTIDOS
Um punhal apontado para o pescoço
Rasga-me, corta-me! Dói a agonia.
Não grito nem me debato, não ouço
Inerme, sangue gelado - tirania -

Há guerra nos sentidos, convulsões
Um querer querendo libertar-se
O não insistindo em vãs razões
O fato é que padeço por amar-te!

Culpada por sentir e emudecer
Calam-se todas as palavras sutis
Meus lábios roxos, violeta a morrer!

Tu não sabes ou finge não saber
Num desdém e gestos tão vis
Manto gris, e escrevo a giz o viver!

Das cinzas



DAS CINZAS

Fui ferida pelo desprezo que lanças
Alma minha, amargurada, num caos
Sangrei, chorei, desfiz-me em trapos
Enterrada viva, sem mais esperanças

Negros dias, o sol vestido de luto
À cova talvez desça, porém hoje não!
A fênix apronta o vôo sideral na questão
No olhar do mocho há um mistério astuto

(Morre o sentir, só não matam o livre arbítrio)

Renascer do ser ferido nas fragas, rochas
Pedras atiradas no coração guerreiro
O amor é escudeiro, o querer altaneiro.

De cara lavada, corpo exalando alfazemas
Vou à reviravolta, e na trota deixo o atoleiro
Para ser mulher e afastar o fantasma agoureiro!

Ecos do tempo




ECOS DO TEMPO

Ecos ressoam nos labirintos audíveis
Alaridos e gemidos, velhos tempos
Tempo armistício, razões perecíveis
Ficaram nas lavras deste destempo.

Fio cortante das horas irrevogáveis
Na garganta o grito que desaba o lenho
Na floresta dos meus cabelos indeléveis
Tento apoiar-me nas lembranças que tenho.

Não passam mais as caravanas da alegria
Nem o mar apresenta-se com suas naus
Vazio de sal, velas brancas de Santa Luzia.

Ofuscada visão, brumas e obliteração, caos
Duma alma sem terceira visão e acrinia
Seca lacrimal, não navega mais outras naus!

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Lorde Byron




LORDE BYRON

Lá atrás num tempo sem tempo,
Escondido da vida, num canto
Qualquer foi enterrado o
Sentimento.

Tão importante e marcante,
Porém em sua cova não existe
Nome, nem data, indigente.

Desconhecido e ignorado,
Sem flores e poesia,
Passou desapercebido e jaz
Em uma lápide fria.

É avistado perambulando
Em noite escura,
Bebendo em uma taça feita de
Crânio os horrores da humanidade
Que o condenaram ao esquecimento.

Alma de mago













ALMA DE MAGO

Pedras chorando a levar as águas
Escuras gotas de amarguras
Cai por entre os dedos a mágoa
Na ausência do dia, varredura

Alma em sofrimento a inquirir
A falta das estrelas, do sol a luzir
O embaço dos vidros a impedir
Que a alquimia venha expandir

Ossos espalhados pelos cantos
Fétida carne em apodrecimento
Sou a imagem do desencanto
Esperando o arco-íris, o movimento

Mas amo a vida com atrevimento
Fantasma, mago que ainda tem pranto
Lamento os que vivem no esquecimento
Das lavras que produziam acalantos.

Poetas destituídos dos mantos d’alegria
Perdidos em vã filosofia,
Aviltados enterram também a poesia
Obliterados vasos lacrimais, letargia.

E há de haver um amanhã a renascer
Onde meu esqueleto obsoleto e néscio
Ganhará novo imo, magia de viver
Porquanto me sujeito ao negror, ao vozerio!

Condenação




CONDENAÇÃO

Vejo a cruz no teu sepulcro,
Uma lápide fria cobrindo o
Corpo que um dia foi meu.
Tão bela, uma escultura
Feminina.
Beijos cálidos, mãos que
Eram afagos e um perfume
Que me deixava inebriado.
A dor da tua ausência,
Abriram chagas no coração.
Lembrar daqueles olhos negros
Fitando os meus, levando-me
As alturas... era homem, era
Pássaro... Que castigo!
Hoje só tem abismo.
Esta separação fez-me um
Condenado, a solidão é a
Minha prisão.
Vou vagar pela eternidade,
Com o peso das correntes,
Carregando o punhal que
Usei para matar a minha
Amada!

O bosque








O BOSQUE (2008)

Folhas secas soltas
Ao vento, vítimas de
Um eterno inverno.
Sussurros nos ouvidos,
Lamento dos troncos
Negros, habitar dos
Morcegos e dos
Pensamentos obscuros.
Estaria viva a criatura?
Face branca similar ao
Vestido de núpcias.
Nos longos cabelos
Flores artificiais e no
No alto amparando o
Cérebro, uma coroa de
Madrepérolas.
Seria um anjo que ao
Ensaiar um vôo se
Perdera na neblina?
Solidão atroz da poesia,
O amor foi o algoz,
Matou a rima,
A fantasia.
A inocência, o sorriso
Angelical, jaz agora no
Bosque das ilusões perdidas!
............................................................
O BOSQUE (1998)

Não havia luz apenas neblina fria.
Caminhar por entre as altas árvores
Na escuridão da noite, um encanto.
Pássaros noturnos, corujas, corvos e
Os belos morcegos.
Ao longe se ouvia uma canção
Sombria, o uivar dos ventos, chamando
Para o encontro.
Não havia pranto nem lamento, os
Olhos brilhavam como estrelas,
Não se detinham para a fileira que
Faziam os mortos a
Observarem a minha chegada.
O bosque já me esperava, estava ali pronto
Para ser a minha última morada.

Não se sinta só à noite



Não se sinta só á noite!

Já morri há tanto tempo.
Vejo os meus sentimentos
Pendurados em teias de
Aranhas que se formam
Meu quarto.

Olho tudo, nada vejo.
Cegueira por viver em
Clausura, onde só me visita
Um vento com seus lamentos.

Estou só comigo mesma, aos
Pesadelos, posto que tal abatimento
Advindo de ausências percorre
A medula espinhal.
Sou um ser noturno, frio, anormal.
Pânico total a claridade, ás esferas
Celestiais.

Fantasma nauseabundo.

Mas hei de ver o mundo novamente!
Através da janela dos olhos de um
Poeta que na extrema agonia encontrará
Inspiração e escreverá o mais lindos
Versos dedicados para mim,
Negra solidão!

Prece a solidão




PRECE Á SOLIDÃO

Esperei em inocência anos a fio
O fio da navalha em cortes profundos
Sangrava lágrimas, vermelho era o rio
Leito vazio, sem flor e cor, infecundo

Vi a juventude acenar-me magoada
Por entre os dedos fumaça dissipada
Sem lembranças de ter sido amada
Sou nada! Apenas dizem-me emancipada

Resignada e sem portas para abrir choro
Caminho por ruas solitárias, amor imploro
Não me ouvem, sou sombra, mais nada!

Enforca-me o nó que trago á garganta, Isidoro!
Santo só tu escutas! Liberta-me do inferno, eu rogo
Destina-me um bem, alguém, quero estar apaixonada!

Solidão maldita!


SOLIDÃO MALDITA

Afasta-te vento estás a zunir.
Rituais macabros, agourentos.
Basta-me o desespero, chega de zurzir.
Vás para longe, azarento.

Lôbrego caminho. Estou gelada, morta..
Expus as vísceras, dilacerei o coração.
Por ti fui vencida, solidão maldita.
Mataste em meu peito toda a paixão.

Estás realizado, obtiveste teu intento.
A apodrecer está o sentimento
Sepultado vivo sem caixão.

Envenenei-me com um copo de martírio
Vítima fatal do suicídio
Vagarei sem rumo na escuridão.

Da solidão




DA SOLIDÃO

Solitude em ermo risote
Amargo estar em riste
Ferro que marca o mote
Da palavra, do ser, triste


Embuste eu diria
Temos uma á outra
Tu me fazes companhia
Somos amigas, via de regra


E me olhas assim surpresa
Blue stars nos rodeiam
Vê, não estamos presas


Podemos alcançar a sutileza
Loucos amores inda anseiam
Nas asas do beija-flor em proeza!

ah Fado!


Ah Fado!

Como o silencio das águas , te amei
De mar em mar como uma triste brisa
Sem forma exata, as areias finas beijei
Abracei-te no infinito, pobre poetisa!


Meus sonhos foram-se...São abrolhos
Tantos desamores, amarguras, olhos tristes
Rimando lágrimas, versos, nós e antolhos
Vagando só sem paixão, sem nada em riste.


Se mo houvesse acarinhado, ah fado!
O encanto de ser sereia mulher e cantar
Ter sangue quente ás veias, um amado
Ah fado! Porque tu não mo quiseste amar?
As brumas insistem em meus olhos morar
Solidão em pedra bruta... Frio a cortar a alma
Horizontes que não enxergo, dor a me levar.
Sem a bandeira da esperança, vou naufragar.


Fado tu poderias esboçar um largo sorriso
Dizer que me queres, que sou tudo em tua vida
E dessa tua boca de homem desejado, que viso
Atrevidos lábios a roçar-me, a deixar-me ávida


Lançar ondas, sorver a minha boca ansiosa
Libar as pretensões, os loucos desejos ateus
Fazer emergir a volúpia..Sabes que sou preciosa
Sou uma pérola...Ah fado porque não és meu?










Um blues somente




UM BLUES SOMENTE

Aprisionada em minha própria mente
Quatro paredes cinzentas, frias
Salão dos pensamentos ausentes
Já fui teu girassol um dia.

Cárcere de tristeza e solidão
Onde o carrasco sou eu
Condenou-me esta paixão
E neste quarto onde foste tão meu

Acompanha-me um acorde,
Um blues somente, sem retoques
Chora a guitarra em consolação
Tentando alegrar meu coração

Tuas lembranças me inebriam
Não quero ver o raiar do dia
Bêbada, as fantasias alucinam
Com a luz tu foges e a cama fica vazia.

Tempestades



TEMPESTADES

Chove torrencialmente, triste anoitecer
Poças de água, enxurradas, abandonada
Lágrimas em vertentes. Um padecer
A inundar de tristeza as calçadas

Sinto falta de teu brilho radiante
Daqueles dias que a paixão dominava
De teu olhar tão insinuante
E deste corpo moreno que eu amava

Refugiada em nuvens escuras
Hoje sou a estrela da amargura
Esta água que desaba é meu lamento

E passas pelas ruas e não percebes
O porque das tempestades
Que só nos causou dor e sofrimento!

REFÉM DA TRISTEZA




Refém da tristeza

Caminho das pedras, limos...
Escorregadios atos.
Sorris neste retrato.
Fito-o por horas,
Não admito, mas,
A perfídia tragou-o.
Imprevisto vento meu
Amor levou.

Rasgo-te em mil
Pedaços (não foi fácil)
E vago.
Talvez se quebraram
Os laços...
Sozinha nem sei o
Que faço, do compasso
Meu mundo escapou.
Olho ao redor, tudo vazio...
Cachimônia tê-la para quê?
Tempo vadio que poderia
Deter-se naquele dia de
Encanto.
Livrar-me-ia de tal pranto
E o não o fez!

Passou com um sorriso
Irônico,
Acenando-me um talvez.
E eu que tanto amor
ofertei, da poesia
Tristonha sou refém!

Ode a minha tristeza







Ode a minha tristeza

Nada detém a palavra
Na boca da imaginação
Poeta vomita, lavra
Vês porque tenho razão?

Passou um vento a zumbir
Tentando destruir a plantação
No jardim as flores a cair
Frases poéticas diziam: Não!

O céu despencou sua água
Pensei na fertilidade do sertão
“Vidas Secas” agora flutua
Em meus pensares um grotão

Graciliano se veste de Fabiano,
Pisa a terra árida em desolação
Serve o papagaio para a refeição
À Baleia os ossos, rabo em abano.

Quintana aponta-me as andorinhas
Cantam? Fazendo tremenda alegoria
Defecam em minha cabeça, entrelinhas
E o amor? Passou e levou-me a sabedoria

Cecília traz-me as luvas e canta
“Não sou alegre nem triste”
O meu amor já não me encanta
Nas sombras sou nada, estou em riste

“As casas espiam os homens”
Minha alma é morada da incerteza
Poeta das inutilidades, passam os trens
Sou nada e os dormentes são certezas

Mas sou a cabocla da Cora Coralina
Dentro de mim moram os Orixás africanos
Oxossi guerreiro e Oxum menina
                                                    Entre o rude e a doçura abraço os desenganos!

Vestido de noiva


VESTIDO DE NOIVA

As brumas invadem o recinto
Calabouço criado pela minha mente
A agonia é companhia tão presente
Sem paz o final dos tempos pressinto

Nunca confessei aquilo que sinto
No entanto, corroeu-me esta dor latente
Meu corpo levita, moribundo, doente.
Perdi o viço, a beleza da flor do jacinto.

Meus olhos opacos, lágrimas não vertem.
Na aridez nem sentimentos florescem
O fantasma do sofrer está à espreita
Caminhos sem volta, paixão sem vértice

Quisera ter de volta a juventude
Ter coragem, ímpeto, aquela inquietude.
Mas é tarde, já não podes ouvir minhas queixas!

II
Em laje branca figura a lápide
Um vestido de noiva jaz pendurado
Qual orvalho pelo calor naufragado
Desfez-se quando pensava atingir o ápice.

Crueldade tal veneno de áspide
Matou-me o sonho de ter-te a meu lado
Meu coração sangra com este fado
Caminhos sem volta, paixão sem vértice

Entre nós houveram somente barreiras
O amor tem lá encantos e fronteiras
Faltou-me alçar o vôo da liberdade

Meus lamentos ecoam tardiamente
Queria a ti...A ti unicamente
Réquiem aquele que amei de verdade!

Esquecido



ESQUECIDO

Tremores, calafrios, rondam a alma
Invisíveis criaturas da noite
a perturbar o sentido e inflama
a mente com lembranças e açoites

É por ti que meu peito reclama
Ausência, vilã do sofrimento
A render a paixão que clama
Por um gesto, discernimento

Sem ouvir tua voz, na penumbra
O sentir à tumba, morte vislumbra
Esqueleto combalido, encolhido.

O sangue circula, o coração pulsa
A vida tratou-o com repulsa
Morto ou vivo? Deveras esquecido!

Pensamentos







PENSAMENTOS


Esperei por toda a minha vida...
Tentei, enganei-me, é lamentável
Tantas foram às chances, errei a mira
“Sinto-me um ser pobre, miserável”.

“Triste sou, estou, não conheci o amor”.
Nenhuma riqueza quis ou almejei
A este sentimento dou tanto valor
E irei...Sem ter aquilo que desejei.

Não quero piedade, tive meu quinhão
Iludida por vezes, acreditei na paixão
Por certo tempo a fantasia me fez feliz

Quanto ainda terei que suportar?
A verdade dói, já não posso agüentar
Morrer seria livrar-me desta cruz!

II

Com a morte daria fim ao tormento
Já sou um fantasma a vagar pelo umbral
A esperar abrir as portas do livramento
Nem mesmo sei se sou realmente mortal

Meu coração já não suporta as derrotas
Vejo na escuridão a mortalha ser costurada
Ele bem que poderia bater à minha porta
Fazendo a morte sentir-se ultrajada

Assim, criaria asas na noite sussurrante.
Calaria a boca deste vento uivante
E faria da minha existência um poema

Sentaria-me na ponta de uma estrela
Enfrentaria os golpes da espada afiada
Com amor meu peito seria de aço. Eis o dilema!


Trevas



TREVAS

Com a senhora morte já travei
Minhas batalhas.
Não a venci, fiz um trato.
Ela que espere a hora marcada.

Eis que atrevida surge às trevas,
Querendo deixar-me cega.

Não tente, velha amiga,
Já fizeste outras investidas e saíste
Perdedora.

Queres tentar novamente?
Faça-o, mas não esqueças, desta vez
A batalha vai ser definitiva.

Estou cercada de luz,
Escolha com qual espada queres que
Eu a enfrente,
A minha ou a de Gabriel?
Pode escolher, tem tantos anjos lá no céu!


Podes tentar, vem,
A briga é íntima,
Mas tu criatura ínfima, vais ter que procurar
Outra vítima.

Vá servidora do purgatório,
Pergunte a sua parceira, morte,
Se ela vai querer-me cega no dia
Da partida!
Duvido...

Se tu vieres me ver








Se tu vieres me ver

Branca, esquálida, página desbotada.
Acaso pensas que a ti me entregarei?
Retira-te, não me fere tua adaga afiada.
Quero estar só, na escuridão que criei.

Destas lágrimas que pensas estar a escorrer
Uma gota sequer vou te dar, engolirei.
Chora minha alma, triste padecer.
.Mata-me a saudade, os beijos que não dei.

Oh morte precoce dos sentimentos
Teu amor era obscuro, puro fingimento.
Rondam tormentos, este querer e não te ter

Enterrarei as negras rosas outrora cheirosas
Destas vestes fúnebres e tão odiosas,
Na esperança latente de que tu venhas me ver!

Na escuridão da noite





NA ESCURIDÃO DA NOITE

Alfombras, relvado macio, quente.
Dois corpos celestes trocam carícias
São almas em êxtase, indiferentes.
Gira o mundo e a mente fantasia

Sombras extraídas do delírio
Querer-te além da vida
Pois nem a morte seria um martírio
Na eternidade o amor teria guarida

Na amplidão da noite escura
Silêncio em comunhão com a ternura
Espreitam os espectros embevecidos

Precedem atos amorosos e juras
Amar com sinceridade é a cura
Das trevas que lhes quer esquecidos!

Morte a utopia










Morte á utopia

Em teu olhar a luz morria
Num silêncio de cinzas e agonia.
Um véu de brumas cobria-lhe a
Retina, junto minha imagem
Desertava do espelho.
Do meu vestido preto voavam
Corvos em disparada. Na insanidade
Das horas em que tudo estava inerte.
Baixar á sepultura todas as lembranças
E a frieza de teu corpo se expandido
Na madrugada descrente, deixava-me
Taciturna.
Sem mais gestos ou expressões ante
A caótica verdade, nosso amor em
Ambrósia se esculpia, lápide que
Encerra a felicidade, a utopia.



Amargura




AMARGURA

Desenganos tantos a ferir a alma
A aura fica negra, sem luz
Amargura, dias plúmbeos, sem calma
Falta carinho a paz que conduz

Sigo vagando com minha cruz
Um fantasma a perambular
Nada mais interessa ou induz
Ela se foi para nunca mais voltar.

Nada tem importância agora
Minha vida também foi embora
Nem flores irão me consolar

Olho esta lápide fria que ignora
O sentimento enterrado outrora
E que de mim não quer se apartar!

O senhor da noite



O Senhor da Noite

É tarde... a hora se aproxima.
O sol vai apagar,
A escuridão vai reinar.
Encontrarei a minha sina.

Chega das trevas o meu amado,
Silencioso e de implacável olhar.
Deixa-me atônita, sem chão,
Indo querendo ficar,
Pulsa forte o coração.

Quando toca minha mão, viajo,
Uma transferência de dimensões,
Entre o céu e o inferno,
Deixo minhas ilusões!

Sagrada é a morte física,
Abre a porta da eternidade.
Estrada da não realidade, sombria.
Caminho profano, o único que
Leva ao teu encontro,
Senhor da Noite!

Sombras da morte



SOMBRAS DA MORTE


Ouço o vento que passa a zunir em meus ouvidos
E congelar minha alma.
Que fazes por aqui zombeteiro?
Siga seu caminho, a morte não é bem vinda aqui.
Volte às profundezas de onde vieste e não se
Atreva a pronunciar o meu nome.
Você não tem corpo, mas fala o idioma das
Intempéries.
Afasta-te, porque sua ira não me assusta e sua
Força é medíocre ante a vontade de viver que
Trago em meu coração.
Vá mensageiro das trevas e diga aos que te
Rodeiam que encontraste um inimigo
a altura.